O lado da doença que ninguém vê

 


Um relato pessoal sobre câncer, depressão, solidão e a dificuldade de continuar quando, por dentro, já não somos os mesmos

Existem momentos na vida em que a gente percebe que ser forte o tempo inteiro é impossível.

Durante muito tempo, tentei ser forte.

Continuei trabalhando. Continuei tomando decisões. Continuei administrando responsabilidades e estando à frente de diferentes organizações. Mantive compromissos, projetos e uma rotina profissional extremamente exigente.

Para quem olhava de fora, talvez parecesse que minha vida continuava normalmente.

Mas não continuava.

Por trás de cada compromisso existia uma batalha que poucas pessoas conheciam.

Há alguns anos venho enfrentando o câncer colorretal. É uma doença que trouxe para a minha vida uma realidade completamente diferente daquela que eu conhecia. Exames, tratamentos, preocupações, mudanças físicas e emocionais passaram a fazer parte de uma rotina que ninguém escolhe viver.

E, recentemente, outra notícia chegou para aumentar ainda mais esse peso: um câncer de pele, em uma região do rosto.

É difícil explicar o que passa pela cabeça de alguém quando percebe que precisa enfrentar novamente o medo de uma doença grave.

É difícil explicar porque, muitas vezes, nem nós mesmos conseguimos organizar aquilo que sentimos.

Mas existe algo que posso dizer com certeza:

o câncer não machuca apenas o corpo.

Ele também mexe com a nossa cabeça, com nossa autoestima, com nossos relacionamentos e com a maneira como passamos a enxergar o mundo.

E foi nesse processo que percebi que havia outra batalha acontecendo dentro de mim.

A depressão.

Eu estava cansado de fingir que estava tudo bem

Talvez uma das coisas mais difíceis tenha sido admitir que eu não estava bem.

Eu estava acostumado a resolver problemas.

A trabalhar.

A tomar decisões.

A assumir responsabilidades.

A seguir em frente mesmo quando as circunstâncias eram difíceis.

Então, por muito tempo, pensei que também conseguiria resolver aquilo sozinho.

Só que depressão não é simplesmente tristeza.

Não é apenas ter um dia ruim.

Não é falta de força de vontade.

E não desaparece porque temos uma agenda cheia ou porque existem responsabilidades esperando por nós.

Eu descobri isso da maneira mais dolorosa.

Comecei a me fechar.

Comecei a falar menos.

Comecei a evitar determinadas situações.

E encontrei no trabalho uma maneira de não pensar.

Trabalhar passou a ser uma espécie de esconderijo.

Quanto mais eu trabalhava, menos precisava olhar para aquilo que estava acontecendo emocionalmente comigo.

E minha rotina profissional já era extremamente pesada.

Estar à frente de diferentes organizações significa carregar responsabilidades que não podem simplesmente ser colocadas de lado. Existem decisões que precisam ser tomadas, problemas que precisam ser resolvidos e pessoas que dependem dessas decisões.

Então eu continuei.

Continuei mesmo cansado.

Continuei mesmo emocionalmente esgotado.

Continuei mesmo quando, em alguns momentos, tudo o que eu queria era simplesmente desaparecer por algumas horas do mundo e não precisar responder a ninguém.

A rejeição foi uma das partes mais dolorosas

Mas existe algo que tornou todo esse processo ainda mais difícil: a maneira como algumas pessoas passaram a me enxergar depois que adoeci.

Algumas pessoas se afastaram.

Outras deixaram de procurar.

Algumas relações simplesmente desapareceram.

E, em determinados momentos, senti que algumas pessoas não sabiam lidar com a minha doença e preferiram manter distância.

Talvez não tenham feito isso por maldade.

Talvez tenha sido medo.

Talvez falta de informação.

Talvez simplesmente não soubessem o que dizer.

Mas, para quem está do outro lado, o resultado é praticamente o mesmo.

Você se sente rejeitado.

E quando alguém já está emocionalmente fragilizado, esse sentimento pode assumir proporções enormes.

Começamos a pensar:

"Será que as pessoas não querem estar perto de mim porque estou doente?"

"Será que passaram a me enxergar apenas como alguém com câncer?"

"Será que vão embora quando souberem de tudo o que estou enfrentando?"

Essas perguntas começaram a fazer parte dos meus pensamentos.

E isso mudou minha maneira de me relacionar.

Passei a ter medo das pessoas

Hoje reconheço que uma das consequências de tudo isso foi o medo de criar novos vínculos.

Passei a ter receio de conhecer pessoas.

Receio de me aproximar.

Receio de contar aquilo que estou vivendo.

Receio de mostrar minhas fragilidades.

Porque, quando algumas pessoas vão embora justamente quando você mais precisa de companhia, você começa a acreditar que talvez seja melhor não permitir que ninguém chegue perto demais.

É uma forma de defesa.

Você pensa que, se não criar vínculos, não poderá ser abandonado.

Se não contar o que sente, ninguém poderá usar sua fragilidade contra você.

Se não esperar nada de ninguém, não poderá se decepcionar.

Só que existe um problema nessa lógica:

ao tentar evitar a rejeição, você também acaba impedindo a possibilidade de ser acolhido.

E foi assim que a solidão ganhou espaço na minha vida.

Estar cercado de pessoas não significa não estar sozinho

Essa talvez seja uma das maiores contradições que experimentei.

Minha vida profissional me coloca diariamente em contato com muitas pessoas.

Tenho responsabilidades, reuniões, decisões, projetos e diferentes ambientes corporativos.

Mas estar cercado de pessoas não significa necessariamente ter alguém com quem conversar sobre aquilo que realmente importa.

Você pode estar em uma sala cheia e, ainda assim, sentir-se completamente sozinho.

Pode receber dezenas de mensagens durante o dia e não ter coragem de mandar uma única mensagem dizendo:

"Eu não estou bem."

Pode ser responsável por decisões importantes e, ao mesmo tempo, não saber o que fazer com a própria dor.

Foi assim que me senti muitas vezes.

E talvez essa seja uma das faces mais silenciosas da depressão.

Ninguém está imune

Durante muito tempo, talvez eu tenha acreditado que conseguiria escapar.

Acreditava que manter a mente ocupada seria suficiente.

Que trabalhar resolveria.

Que continuar produzindo faria os pensamentos desaparecerem.

Não aconteceu.

Porque podemos controlar uma agenda.

Podemos administrar uma empresa.

Podemos resolver problemas.

Podemos liderar organizações.

Mas não podemos simplesmente mandar nossas emoções obedecerem.

Em algum momento, o corpo cobra.

A mente cobra.

A vida cobra.

E percebemos que também precisamos cuidar de nós mesmos.

Estou tentando reaprender a viver

Não escrevo este texto porque encontrei todas as respostas.

Ainda não encontrei.

Continuo enfrentando o tratamento contra o câncer.

Continuo lidando com as consequências emocionais de tudo aquilo que aconteceu.

Continuo tentando compreender a depressão.

Continuo tentando recuperar uma parte de mim que ficou perdida durante esse processo.

Mas existe uma coisa diferente agora.

Estou tentando falar.

Durante muito tempo, o silêncio pareceu mais fácil.

Hoje começo a entender que o silêncio também pode adoecer.

Por isso decidi escrever.

Não para pedir pena.

Não para transformar minha doença em espetáculo.

Não para fazer ninguém se sentir culpado.

Mas porque talvez alguém que esteja lendo isso também esteja passando por algo parecido e acreditando que precisa enfrentar tudo sozinho.

E eu gostaria que essa pessoa soubesse uma coisa:

você não precisa ter vergonha de não estar bem.

Doença não diminui ninguém.

Depressão não torna ninguém fraco.

Precisar de ajuda não significa fracassar.

E estar enfrentando um momento difícil não significa que a história terminou.

Ainda estou aqui

Depois de tudo, talvez essa seja a frase mais importante que posso escrever:

eu ainda estou aqui.

Ainda trabalhando.

Ainda tentando.

Ainda enfrentando o tratamento.

Ainda lutando contra os dias ruins.

Ainda tentando reconstruir relações.

Ainda tentando confiar novamente.

Ainda tentando entender quem eu sou depois de tudo o que aconteceu.

Talvez eu nunca volte a ser exatamente a pessoa que era antes da doença.

Mas talvez isso não seja necessariamente ruim.

Algumas experiências nos quebram.

Outras nos transformam.

E algumas nos ensinam a enxergar coisas que antes ignorávamos.

Hoje sei que por trás de um profissional, de um empresário, de um gestor ou de qualquer posição que uma pessoa ocupe existe simplesmente um ser humano.

Um ser humano que também sente medo.

Que também precisa de carinho.

Que também precisa ser ouvido.

Que também precisa de alguém que diga:

"Você não precisa enfrentar isso sozinho."

Eu ainda tenho um longo caminho pela frente.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, estou tentando não esconder esse caminho.

Estou tentando caminhar com mais verdade.

Porque talvez a cura não esteja apenas em combater aquilo que está dentro do corpo.

Talvez também seja necessário cuidar daquilo que está dentro da alma.

E essa é uma batalha que, agora, decidi parar de enfrentar em silêncio.

Olá, Eu sou o Rhuan!

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